13/12/2019 às 12h40min - Atualizada em 13/12/2019 às 12h40min

Big Brother: o que o programa tem a ver com 1984, de George Orwell?

Analistas divergem sobre semelhanças e diferenças entre o romance sobre sociedade totalitária e o reality show

Vinícius Mendes
CULTEDGE
Quando o reality show Big Brother começou, em 1999, muita gente se perguntou por que tinha esse nome. A série, criada na Holanda pelo bilionário da mídia John de Mol, é hoje uma franquia vendida para vários países do mundo, fazendo sucesso tanto na TV dos Estados Unidos e do Canadá como na China, na África do Sul, na Albânia, na Itália, na Bélgica, na Argentina e, claro, no Brasil.

 

George Orwell, autor de 1984 - Crédito - WikiPedia

Em todas elas, a premissa é a mesma: um grupo de pessoas é colocado dentro de uma casa construída para servir de isolamento e, durante o período em que eles vivem juntos, são constantemente monitorados por um vasto sistema de câmeras e de dispositivos de áudio. Semanalmente, eles precisam eliminar um participante até que, no final, o último "sobrevivente" ganhe uma bolada como prêmio. No caso do Brasil, o BBB 20 vai entregar R$ 1,5 milhão ao vencedor.
 
Assim, o Big Brother não é usado apenas como título do programa, mas como a ideia de uma figura de autoridade onipresente, representada pelos produtores do programa. Eles criam e dão tarefas aos "internos" da casa enquanto se comunicam com eles por meio de voz, como no livro 1984, do escritor britânico George Orwell. Mas há comparação entre os dois? Segundo alguns analistas, não.
 
O escritor estadunidense A. J. McMahon, autor do site Fly Into Books ("Voo sobre livros", em tradução livre), é um deles. "No seu romance, Orwell estava tentando mostrar um futuro distópico no Reino Unido em que um partido único totalitário controlaria os pensamentos e os comportamentos da sua população. No programa de TV, os participantes são constantemente monitorados com câmeras e equipamento de áudio. No entanto, em 1984, as pessoas não têm controle sobre o monitoramento, enquanto os participantes do reality show podem sair da casa na hora em que quiserem", diz ele.
 
"Uma grande parte do romance de Orwell também é sobre censura. Fotografias são editadas e arquivos públicos são modificados para controlar as informações disponíveis à população. As pessoas que eram eliminadas do partido tinham suas fotos apagadas, e figuras do passado eram mudanças para cobrir falsidades do presente. Isso não acontece no Big Brother", completa.
 
Escrito em 1949, o romance 1984 de George Orwell tem como protagonista um trabalhador comum chamado Winston Smith, que vive em uma sociedade totalitária e que cultua um líder chamado de Grande Irmão (Big Brother). No entanto, sequer o personagem sabe se ele existe mesmo. Em uma das passagens, quando Winston faz essa pergunta a outros personagens, a resposta é sempre dúbia. "Claro que ele existe. O partido existe. O Grande Irmão é a corporificação do partido".
 
No final, tem-se a impressão de que o Grande Irmão, de fato, não existe, mas muitos analistas dizem que Orwell tinha um líder em mente quando pensou na obra: Joseph Stalin, que governou a União Soviética entre da década de 1920 até 1953, quando morreu, por meio de um único partido.
 
Para McMahon, a única semelhança entre o programa e o livro é a ideia do monitoramento. "O livro de Orwell é essencialmente uma crítica a regimes totalitários. Ele faz isso descrevendo como seria o futuro do Reino Unido se o país fosse governado por um partido único. Era especialmente uma crítica a Stalin", finaliza.
 
Não é a mesma opinião de George Harrisson, repórter do tablóide britânico The Sun. "No programa e fora dele, o Grande Irmão é uma figura onipresente jamais vista, como um deus, que controla a vida e as emoções dos participantes por meio de ofertas de privilégios ou punindo infrações. Assim como no livro, se alguém faz algo errado, o Grande Irmão sabe, e ao mesmo tempo é a única pessoa que eles podem conversar além dos colegas da casa", diz.
 
"Da mesma forma, como os cidadãos de 1984, os participantes do programa são encorados a competir uns com os outros -- nesse caso, com o objetivo de se manter na casa até o final", completa.
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