Em cidades do interior (e também nas grandes), existe uma crença quase folclórica: a de que vereador asfalta rua, constrói obra, instala iluminação pública e, em casos mais avançados de imaginação popular, decide até onde o poste deve ficar em frente à casa do eleitor.
Nada mais distante da realidade — mas a lenda persiste, convenientemente alimentada.
Convém esclarecer o básico, já que o óbvio anda precisando de manual: vereador não executa obras, não asfalta ruas, não troca lâmpadas, não manda patrola, não instala obstáculo, lombada ou qualquer outro artefato urbano.
Vereador legisla e fiscaliza. Ponto final. Todo o resto é encenação, oportunismo ou desinformação convenientemente explorada.
Mesmo assim, há quem ainda bata no peito para dizer que “foi o vereador quem fez”, como se o gabinete tivesse virado secretaria de obras, usina de asfalto ou depósito de postes.
Para completar o teatro, surgem fotos nas redes sociais: capacete na cabeça, colete refletivo no corpo e pose de engenheiro civil improvisado. Falta apenas a britadeira para fechar o espetáculo.
O mais curioso é quando o barulho é vendido como “fiscalização”. Alguns vereadores descobriram que aparecer gritando, gravando vídeos inflamados e apontando o dedo rende mais curtidas do que estudar projeto de lei, ler orçamento ou acompanhar contrato público.
Fiscalizar virou sinônimo de performar indignação — de preferência com plateia, trilha sonora dramática e legenda em caixa alta.
Enquanto isso, o trabalho real — silencioso, técnico e pouco fotogênico — segue ignorado. Debater leis, analisar contas, fiscalizar de verdade exige preparo, leitura e responsabilidade. Não rende aplauso fácil nem vídeo viral. Dá trabalho.
E trabalho, ao que parece, não é tão atrativo quanto a encenação.
Talvez esteja na hora de a população entender — e cobrar — o que cada cargo realmente faz. Vereador não é despachante de obra, não é síndico da rua e muito menos faz milagre urbano. E quando alguém insiste em vender essa fantasia, o problema não é só a ignorância de quem acredita, mas a má-fé de quem finge acreditar junto.
No fim das contas, o excesso de barulho costuma esconder a falta de conteúdo. E política séria não precisa de capacete para foto — precisa de responsabilidade, limites claros e menos teatro.
Thiago Giron Garcia - Araçatubense, empresário, entusiasta político e crítico nas horas vagas.
