09/07/2020 às 16h36min - Atualizada em 09/07/2020 às 16h36min

Facebook falhou em proteger direitos civis, afirma auditoria interna

Um documento com quase 100 páginas, resultado de dois anos de análise das atividades na rede social, constatou que o Facebook não fez o suficiente para combater a descriminação na plataforma

Olhar Digital
Uma consultoria independente, contratada pelo próprio Facebook, constatou que a rede social não fez o suficiente para combater a discriminação em sua plataforma, além de ter feito escolhas que se tornaram "reveses significativos para os direitos civis". O relatório de 89 páginas foi divulgado pela empresa.

"Muitos na comunidade de direitos civis ficaram desanimados, frustrados e irritados após anos implorando à empresa que fizesse mais para promover a igualdade e combater a discriminação, além de proteger a liberdade de expressão", escreveram as advogadas especialistas em direitos civis Laura W. Murphy e Megan Cacace, autoras do relatório.

Entre os problemas apontados está a escolha do Facebook em liberar várias postagens do presidente Donald Trump, incluindo três em maio que as auditoras disseram "violar claramente" as políticas da empresa que proíbem discursos de ódio e incitação à violência. Em algumas decisões, a empresa não procurou especialistas em direitos civis, disseram as auditoras após analisar atividades por dois anos, potencialmente estabelecendo um precedente "terrível" que poderia afetar as eleições gerais de novembro e outros problemas de discurso.

De uma maneira geral, o relatório afirma que o Facebook está muito disposto a isentar os políticos de cumprirem suas regras, permitindo que eles espalhem informações erradas e uma retórica divisória. "Elevar a liberdade de expressão é uma coisa boa, mas deve ser aplicada a todos", escreveram as auditoras. "Quando isso significa que políticos poderosos não precisam obedecer às mesmas regras que todos os outros, é criada uma hierarquia de discurso que privilegia certas vozes em detrimento de vozes menos poderosas".

O Facebook está sendo muito pressionado por permitir que discursos de ódio, informações erradas e outros conteúdos que possam ir contra os direitos civis. Mais de mil marcas concordaram em interromper seus gastos na plataforma como resposta à inação da empresa, que diferente dos rivais Twitter, Snapchat e Reddit, reforça que não tomará medidas porque acredita na liberdade de expressão.

Os executivos do Facebook já haviam apontado essa auditoria como um sinal de que a empresa estava levando à sério as críticas. A diretora de operações, Sheryl Sandberg, afirmou em uma postagem no blog da empresa, em resposta ao relatório, que o documento era "o começo da jornada", não o fim. "O que ficou cada vez mais claro é que temos um longo caminho a percorrer. Por mais difícil que tenha sido expor nossas deficiências por especialistas, sem dúvida foi um processo realmente importante para nossa empresa", afirmou a executiva.

"Ser uma plataforma em que todos possam fazer ouvir a sua voz é essencial para a nossa missão, mas isso não significa que é aceitável que as pessoas espalhem ódio. Não é ”, escreveu Sandberg. "Temos políticas claras contra o ódio - e nos esforçamos constantemente para melhorar e acelerar a aplicação delas", completou.

Nem tudo são críticas. As auditoras comentam que o Facebook avançou em algumas questões, incluindo o aumento da contratação de especialistas internos em direitos civis nos últimos dois anos. O CEO Mark Zuckerberg também se comprometeu pessoalmente a criar produtos que "promovam a justiça racial", afirmou o relatório.

Em uma série de recomendações, o relatório pede que a empresa monte uma infraestrutura de direitos civis mais robusta e reveja a aplicação das suas políticas, incluindo "ações mais concretas e compromissos específicos para lidar com questões de viés ou discriminação algorítmica".
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