25/07/2018 às 14h52min - Atualizada em 25/07/2018 às 14h52min

Conheça a história de um dos desbravadores de Salmourão e de toda a Alta Paulista

"Ele primeiro comprou mil km², depois ajudou a fundar Osvaldo Cruz, Salmourão e Inúbia Paulista"

Lucas Reis, especial para o AtaNews
O suíço Max Wirth. ( Foto: Reprodução)
Certo dia (era 1921), Max Wirth vendeu a próspera tecelagem que tinha em sua terra, a Suíça. Pegou os sete filhos (o mais novo uma menina de 6 meses) e tomou um navio para o Brasil. A viagem terminou no sertão bruto do Oeste Paulista. Com o dinheiro da venda, Wirth comprou áreas tão grandes que até hoje se diz serem maiores do que a Suíça. Não era tanto, mas os mais de mil quilômetros quadrados representavam um quarto da área do país europeu.

As terras que Wirth abriu são hoje os municípios de Salmourão, Osvaldo Cruz (o maior deles, com 30 mil habitantes), Inúbia Paulista, Piacatu e Oriente. Também participou da fundação de Lucélia. As cidades estão no espigão que fica entre os Rio Aguapeí e Rio do Peixe e em suas vertentes, na Alta Paulista.

Wirth tinha 40 anos. Aos 18, esteve em São Paulo pela primeira vez. Trabalhou com arroz, em sociedade com um compatriota, caçou e pescou. Dois anos depois, voltou para a Suíça. Casou-se e teve quatro filhos, mas a mulher morreu. Casou-se novamente, com Emilie, e teve três filhos. Vendeu a tecelagem e tomou o navio.

Para abrir suas terras, precisou enfrentar onça e acampar no mato. Justamente o que adorava fazer. A caça e a pesca eram controladas na Suíça. “Meu avô deixou a vida confortável da Suíça e se embrenhou por essa mata que não tinha estrada nem médico nem nada.”, conta a neta Rêgula Baumgartner - ao todo, o suíço teve 18 netos. “Era um apaixonado caçador e pescador.”

Na região viviam russos e alemães, romenos, búlgaros, italianos, japoneses e, naturalmente, suíços. O vilarejo mais próximo de onde os Wirth ficaram era Guaimbê, hoje Lins, a 25 quilômetros. Max fez uma casa de tábuas e ali instalou a família. Abriu a pioneira Fazenda Suíça. Plantou algodão e cereais, depois café. Em 1926 tinha mais de 1 milhão de pés de café e 500 alqueires de pasto. “Ele viveu o tempo áureo do café e a crise, a partir de 1929.”, diz Rêgula. Como tinha boa área de algodão para compensar, pôde continuar com o café.

A fazenda tinha olaria, serraria e oficinas. E máquinas para beneficiar café. Wirth “foi dos primeiros pioneiros da Noroeste a adubar as terras e construir curvas de nível”, lê-se em texto de Jorge Nogueira Camargo, de 1966. Comprou outras glebas, em relação às quais surgiram litígios, depois resolvidos. A abertura de uma dessas áreas, comprada em 1921, foi interrompida por um surto de malária. Só quase 20 anos depois retomou-se a empreitada.

A propriedade recebeu o nome de Califórnia, que viria a ser Osvaldo Cruz. Os registros de Camargo indicam a compra por Wirth de áreas que somam 37.850 alqueires (916 quilômetros quadrados), mas não incluem todas as aquisições. O suíço loteava áreas e as vendia para futuros agricultores. E abria fazendas. A segunda delas foi a Paredão, em Alto Cafezal, atual Marília. A fazenda tem, hoje, um dos mais conhecidos projetos de seleção de gado nelore do País.

Rêgula, a neta, conta que, nos primeiros tempos, o governo do Estado exigia que em determinado prazo se abrisse 5% de cada gleba. “Meu avô pôs frentes em vários pontos.” Armavam acampamentos, com barracas de tronco de coqueiro, cobertas por palha. “A do chefe (Wirth) tinha um barômetro instalado à entrada.” Com ele, o suíço fazia sua previsão do tempo. Se fosse de chuva, levantavam acampamento. Porque, se a água viesse, não conseguiam mais sair de lá.

Wirth teve como parceiro outro suíço, Walter Schiller, engenheiro e agrimensor. Primeiro, empregou-o como administrador da Fazenda Suíça. Logo, Schiller estava na mata para abrir picadas nas terras do patrício. Quando a comida acabava, os dois iam à caça. “Às vezes só achavam macacos”, conta Fritz Schiller, de 72 anos, um dos cinco filhos do engenheiro. “O cozinheiro se recusava a matar e meu pai é que tinha de fazer isso.” À noite, mantinham fogueiras ao redor das barracas, por medo das onças.

Em 1937, Walter Schiller e a família estavam no que seria Lucélia. O engenheiro tinha casado com Amália, filha de um jardineiro de Max Wirth. Tiveram filhos. Ele comprara uma fazenda, onde produzia pinga. Chegou a ter 20 mil litros dela. “Em Lucélia era tudo mato”, lembra Ermínia Gertrud, de 52 anos, filha de Schiller. Na fazenda tinham leite, ovos. “O resto era de Araçatuba, a 100 km.”

A família ia apinhada em um Ford velho. Um dia inteiro para ir, outro para voltar. “A estrada era uma picada. A cada 3 ou 4 km tinha um desvio. Era para um carro esperar a passagem do outro, porque dois juntos não passavam.” A meio do caminho ficava Valparaíso, com uma vendinha. “Meu pai comprava lanches e a gente fazia um piquenique.”

Schiller, tocador de harmônica e grande bebedor de cerveja, mostrou-se pessoa eclética. Foi avaliador do Banco do Brasil, depois funcionário da prefeitura de Valparaíso. Durante a 2ª Guerra, era inspetor de quarteirão. O pesquisador Luiz Carlos Assis, de Lucélia, guarda documentos dessa época. Em um deles, Schiller reporta-se ao delegado de Valparaíso. “Recebi hoje suas cartas e imediatamente tomei providências, tendo pregado em todas as vendas e botequins um edital com certas instruções necessárias. Aqui, entre italianos e alemães, por enquanto não descobrimos nada (...). Em Tucuruvi, mandei uma pessoa de confiança para vigiar as atividades das poucas famílias japonesas que moram lá.”

Também informa que proibiu moradores de discutir “política ou as providências do governo brasileiro”. Intimou um morador a entregar o rádio - pois era de uma família sob vigilância. A Suíça de Schiller era neutra no conflito mundial. Clique aqui para acessar a matéria original!

 
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »