15/01/2018 às 15h38min - Atualizada em 15/01/2018 às 15h38min

Laboratórios se unem e identificam R$ 44 bi com indícios de lavagem de dinheiro no Brasil em uma década

Polícia Civil do Estado de São Paulo
Foto: Divulgação
Em 11 anos, uma rede brasileira composta por 58 laboratórios de tecnologia contra a lavagem de dinheiro, a Rede Lab-LD, identificou ao menos R$ 44,43 bilhões originados de atividades com suspeita de irregularidades.
 

A Rede Lab-LD surgiu em 2006, por iniciativa de uma meta da Enccla (Estratégia Nacional de Combate à Corrupção à Lavagem de Dinheiro), maior forum de órgãos públicos e empresas na prevenção e repressão aos crimes de colarinho branco no país. À época, era apenas um laboratório no Ministério da Justiça.
 

A partir de 2008, eles começaram a serem replicados nos Estados, subindo para nove unidades.

Em 2011, o Ministério da Justiça fechou seu projeto-piloto, ficando apenas com a coordenação da rede. Hoje, são 325 funcionários trabalhando nas unidades da Rede Lab-LD, com salários pagos pelos Estados, trabalhando com dados oriundos de 58 laboratórios. O governo federal fornece apenas equipamentos, aplicativos licenciados e treinamento - já capacitou 3.674 pessoas desde 2011.

 

PCC, desvio de dinheiro e Lei Rouanet

Um dos primeiros resultados do trabalho no laboratório foi visto durante as investigações que levaram à prisão de membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) responsáveis pelos ataques realizados em São Paulo, em 2006. No ano seguinte, foram feitos diversos cruzamentos entre os saques de familiares de suspeitos, uma apuração conjunta da Polícia Civil e da Promotoria de São Paulo.


Escola de samba e paraísos fiscais

Em São Paulo, o coordenador do LAB-LD da Polícia Civil, delegado Robinson Fernandes, diz que a tecnologia está ajudando uma série de investigações.

Sem entrar em detalhes, para preservar o sigilo de investigações de outras delegacias, ele disse que as apurações envolvem escolas de samba, passando por remessa de valores para o paraíso fiscal da Ilha de Man e até uma quadrilha de "mulas" que transporta dinheiro de traficantes e contrabandistas com ajuda de albaneses. "Foi verificada uma grande ramificação aqui em São Paulo, envolvendo comerciantes e máfia chinesa", afirma o policial.

Para Fernandes, sem o modo de trabalho aprendido durante os anos, vários casos não seriam solucionados. "O laboratório trouxe a atuação interinstitucional, que são vários órgãos trocando figurinhas, trocando informações, os convênios com o Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]. Se não fosse essa conversa, nós não saberíamos: 'Olha, esse cidadão que está aqui neste caso também já esteve naquele outro', não conseguiríamos cruzar esses dados", exemplifica.

Em São Paulo, as investigações de 241 casos criminais, no período de janeiro a novembro do ano passado, envolviam 702 pessoas e 481 empresas. No mesmo período, as autoridades identificaram R$ 642 milhões de atividades ilegais no Estado, que foi um dos primeiros a implementar o laboratório.

Hoje são 18 pessoas trabalhando no local de 40 metros quadrados divididos em cinco salas-- para atender às demandas por informação das delegacias do Estado inteiro. Os equipamentos são computadores com aplicativos, câmeras, filmadoras e impressoras. A unidade paulista é certificada com o ISO 9001 há oito anos. Uma sala de videoconferência permite conversar com toda a rede de laboratórios antilavagem do país e com o Ministério da Justiça.

Os analistas, que atuam não só na área de computação, economia e direito, mas também da psicologia, trabalham com vários softwares de inteligência como análise de vínculos, estatísticas e cruzamento de dados. "Os aplicativos são excelentes, a Nasa utilizada alguns deles, mas nada substitui o ser humano. Não existe um processo 100% automatizado", explica Fernandes.
 


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