24/12/2020 às 11h15min - Atualizada em 24/12/2020 às 11h15min

As mentiras que as crianças contam

Aprender a mentir faz parte do desenvolvimento cognitivo, mas qual é a melhor forma de lidar com isso?

Unimed
Como reagir diante da mentira infantil? Essa é uma dúvida frequente entre pais, mães, educadores e cuidadores. Em primeiro lugar, é importante diferenciar o que é fantasia e o que é mentira intencional.

Vale lembrar que as duas são normais e fazem parte do desenvolvimento infantil e do aprendizado social. Mas entender as nuances ajuda a direcionar as ações mais acertadas na educação da criança. Confira aqui:

Fantasia ou mentira?




Antes dos três anos, é comum que a criança não saiba distinguir muito bem a realidade da fantasia. Histórias fantásticas e amigos imaginários são formas de construir uma realidade própria e desenvolver a criatividade.

Exceto se a criança tiver muita dificuldade de sair dessa fantasia, não há muito com o que se preocupar. Pelo contrário: os adultos podem aproveitar o mesmo recurso de “faz de conta” para passar mensagens importantes para a criança.

Por exemplo: se a bagunça do quarto foi “culpa de uma bruxa malvada”, a sugestão para o adulto, nesse caso, é entrar na brincadeira e convidar a criança a dar uma “lição na bruxa”, mostrando como se arruma o quarto. Assim, se mostra o que deve ser feito sem constranger a criança.

Já o que chamamos de mentira tem três aspectos essenciais: é consciente, intencional e traz algum benefício para quem mente.

Os primeiros “ensaios” de mentira costumam acontecer a partir dos três anos, mas normalmente a criança não consegue segurar a versão por muito tempo, logo caindo em contradição ou “se entregando” de outras formas.

Já a mentira intencional ocorre normalmente a partir dos seis ou sete anos, quando a criança já tem mais claras as noções de certo e errado, de causa e consequência. Os motivos são variados: escapar de uma punição, obter alguma vantagem, causar determinada impressão entre amigos ou mesmo reproduzir um comportamento adulto.

A mentira na infância faz parte do aprendizado social e não denuncia falha de caráter. É importante não estigmatizar a criança como “mentirosa”. Ela está aprendendo a se relacionar, explorando o efeito de suas falas e ações e descobrindo que uma pessoa não sabe tudo o que a outra sabe.

Cabe ao adulto ensinar como usar essas habilidades, a se colocar no lugar do outro e mostrar que falar a verdade é um caminho melhor.

Como lidar com a mentira?



Saber que faz parte do aprendizado social não autoriza adultos a ignorarem as mentiras das crianças. É preciso pontuar e conversar sobre o comportamento e suas consequências.

A omissão dos pais pode passar à criança a ideia de que mentir compensa, afinal, ela conseguiu o que queria assim.

Porém, o excesso de rigor também não funciona: afinal, o medo de punição é uma das principais causas da mentira. Gritar ou pressionar a dizer a verdade podem deixar a criança ainda mais acuada e nervosa.

A melhor forma de lidar com a mentira infantil é a conversa: busque entender as razões da criança e dar alternativas de ações para que ela possa resolver a situação. É importante explicar as consequências e estimular empatia, fazer a criança se imaginar no lugar do outro.

Histórias infantis, como Pinóquio, Pedro e o Lobo, entre tantas outras, podem ser uma boa forma de exemplificar os problemas da mentira usando a própria fantasia. Quem não lembra da história do menino que achava graça de mentir para aldeia que o lobo estava vindo e que, quando finalmente era verdade, ninguém acreditou?

Se notar que a mentira é um hábito muito recorrente e que, apesar de todas as conversas e exemplos, a mentira se repete, é aconselhável buscar uma ajuda psicológica para orientação. Em geral, só é possível perceber essa “mentira crônica” depois dos sete anos de idade. Nesse caso, vale conversar com o pediatra da criança para pedir uma orientação.

Como lidar com a verdade?



Quando a criança disser a verdade, busque valorizar o fato de ela ter assumido a culpa, mostrar que se orgulha de poder confiar nela.

Por exemplo, se ela confessar que quebrou o brinquedo do amigo, convide-a a pensar em uma solução: oferecer um brinquedo próprio em substituição, consertar, além de pedir desculpas ao amiguinho. Assim, não se minimiza o mal feito e ajuda a criança a lidar com as consequências de seus atos de uma forma mais positiva.

Isso vale também para aquele exemplo clássico da sinceridade infantil ao não gostar de um presente. Nesse caso, em vez de ensinar a mentir que gostou só para agradar a pessoa, que tal estimular a criança a reconhecer a boa intenção do outro em presentear e simplesmente agradecer?

Educação pelo exemplo



De nada adianta ter um discurso bonito se, na prática, os adultos estiverem sempre mentindo, pedindo para dizer ao telefone que não estão, falando mal de alguém pelas costas, inventando motivos falsos para não ir a um compromisso.

Por isso, além de tentar dar o melhor exemplo, é fundamental não envolver as crianças em mentiras de adultos. Claro que uma festa-surpresa para alguém querido pode ser uma boa exceção, afinal a verdade logo se revelará.

Mas e o Papai Noel?



O assunto é polêmico em muitas famílias e, até mesmo, entre estudiosos. Será que os adultos estão mentindo ou estão estimulando a fantasia quando estimulam a crença no Papai Noel?

No livro The Myths that Stole Christmas (Os Mitos que Roubaram o Natal, em tradução livre), o filósofo estadunidense David Kyle Johnson critica a mentira sobre o Papai Noel.

Para ele, a mentira quebra a confiança dos filhos nos pais e ainda estimula um pensamento materialista através de uma espécie de “suborno”. Afinal, o bom comportamento será compensado com presentes.

Mas tudo depende de como (ou se) a família escolhe viver essa tradição. Para Johnson, a ideia de Papai Noel não precisa ser eliminada, mas apresentada como uma tradição ou brincadeira. Da mesma forma que a criança pode brincar de ser super-herói, mas sem acreditar que de fato possa voar.

Segundo estudo publicado na revista The Lancet Psychiatry, a criação da fantasia tem a ver com a própria vontade dos adultos em voltar um pouco à infância e brincar com um universo ficcional.

Mas a forma como a verdade se revela, normalmente em torno dos oito anos, pode provocar impactos diferentes nas crianças. No estudo, 56% dos entrevistados dizem que a descoberta não abalou a confiança nos adultos; 33% se disseram chateados, enquanto 25% lembram de terem sentido raiva ou sentimento de traição.

Para a psiquiatra finlandesa Tuula Tamminen, a tradição sobre o Papai Noel estimula a fantasia e, na hora da descoberta da verdade, quando bem conduzida, permite um amadurecimento mental. A criança aprende a superar essa decepção e se sente orgulhosa por perceber que tem idade para saber algo que as crianças mais novas ainda não sabem.

E você? Como lida com a história do Papai Noel na sua casa? E como estimula as crianças a falarem a verdade sem perder a capacidade imaginativa?
 

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