09/12/2020 às 11h45min - Atualizada em 09/12/2020 às 11h45min

Literatura como resistência e pertencimento

Assessoria de Imprensa
Marília Paiva. ( Foto: Divulgação)

A morte de Beto Freitas, espancado e asfixiado por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra, reacendeu o debate sobre o racismo estrutural. Embora delírios ainda sejam compartilhados, como “no Brasil, não existe racismo”, a conquista pela representatividade negra, em espaços historicamente ocupados por brancos, é notável e louvável. Nas últimas semanas, foi a vez da literatura brasileira reconhecer a importância e riqueza de autores e da cultura negra. 

A tradicional Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) abriu sua programação dia 3 com a escritora britânica Bernardine Evaristo, primeira negra a vencer o prêmio Booker Prizer, abordando as questões de raça, classe e pertencimento. Ao longo da programação, metade dos 22 escritores era negra e apresentou a cultura negra em seus livros. 

Uma semana antes, a 62ª edição do Prêmio Jabuti já havia se destacado ao premiar obras com temática antirracista. "Torto arado", de Itamar Vieira Júnior, por exemplo, venceu a categoria Romance Literário. A obra trata da ancestralidade negra e resistência dos povos quilombolas, superando fortes concorrentes, como Chico Buarque, Paulo Scott, Maria Valéria Rezende e Adriana Lisboa.

“Solo para vialejo”, longo poema em que Cida Pedrosa refaz os caminhos que os negros fizeram para o Sertão, foi considerado o livro do ano. “Palmares de Zumbi”, de Leonardo Chalub, foi premiado na categoria infantil por contar a história de um jovem que explora o vilarejo à noite, pregando peças e aterrorizando os feitores e senhores de engenho e “Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro, foi o vencedor da categoria Ciências Humanas.

Embora escritores negros não sejam uma novidade, houve um esforço para “embranquecer” a literatura nacional e seus autores por muito tempo. Pouco se fala que Machado de Assis, ao contrário do amigo e “pai espiritual” José de Alencar, era contra a escravidão e, principalmente, contra a maneira que a abolição ocorreu no Brasil - sem garantir igualdade e reparação aos negros. Também são esquecidos os debates que Lima Barreto travou contra defensores das teorias raciais. 

Outros escritores negros também levantaram a voz contra o racismo. Luiz Gama, Maria Firmina dos Reis, Cruz e Sousa, Solano Trindade e Stela do Patrocínio, mas ficaram restritos a um nicho específico por muito tempo. 

Ainda que tardio, o reconhecimento de autores e da cultura negra ainda nos chega em tempo. Enquanto a Fundação Cultural Palmares exclui negros da lista de personalidades homenageadas, a literatura se mostra como um espaço aberto e fundamental para resistência, pertencimento e, sobretudo, para refletir um Brasil de verdade.

 * Marília Paiva - Presidenta do Conselho Regional de Biblioteconomia Região da 6ª Região

 

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