07/12/2020 às 12h03min - Atualizada em 07/12/2020 às 12h03min

Como o fim do auxílio emergencial pode impactar a economia brasileira?

Assessoria de Imprensa, Naves Coelho
Foto: Divulgação

Quando os economistas falam da riqueza de uma nação, normalmente se referem ao Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todos os produtos finais obtidos a partir dos serviços prestados no país ao longo de um ano. Os produtos intermediários, como, por exemplo, partes e peças de carros vendidos para montadoras, não entram no cálculo, pois isso pode gerar a contagem dupla. Agora, se uma pessoa comprou um farol novo para o seu carro, essa aquisição também entrará no cálculo do PIB. No ano de 2019, o PIB do Brasil chegou a R$7,3 trilhões.

Agora, se tem alguém vendendo, tem alguém comprando, correto? Então, podemos ver o PIB pelo lado da demanda. Ou seja, ele também pode ser mensurado como tudo o que foi adquirido em nosso país durante um ano.

Dividimos os “compradores” em três grandes grupos: governo, empresas e famílias. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Estatísticas (IBGE), o PIB do segundo trimestre de 2020 – dado mais recente disponível – pode ser explicado pela ótica do consumo.

A soma de todas as compras feitas pelas famílias brasileiras chegou a quantia de R$1,16 trilhões de reais. Olhando esse número, vemos que 64% de todos os bens e serviços finais produzidos no Brasil, foram adquiridos pelas famílias. O governo foi responsável por pouco menos de 20% e as empresas por pouco mais de 15%.

Fica fácil perceber, que somos nós – a família brasileira – que tocamos a economia do país. Quando falamos em auxílio emergencial, dá para ver que falamos também em geração de riqueza. Mais dinheiro no bolso das famílias, mais dinheiro para o consumo.

Com o confinamento, muitas pessoas perderam os seus empregos ou tiveram os seus salários reduzidos. Menos salário, menos compra, menos crescimento, o PIB encolhe.

O governo brasileiro, com agilidade, aprovou o auxílio emergencial, compensando a perda de renda da família. Com a renda reposta, as pessoas puderam continuar comprando e reduzindo o impacto negativo do confinamento em nossa economia. Sem o auxílio emergencial, teríamos sofrido muito mais.

O quadro vivido no Brasil, não foi local. Todo o mundo passou pela mesma situação. A solução implementada aqui, não foi uma “jabuticaba”. A receita foi global: disponibilizar dinheiro para que as famílias e pequenas empresas continuassem consumindo e operando. Em outros países, a forma pode até ter sido um pouco diferente da nossa, mas o objetivo foi o mesmo: garantir que as famílias tivessem dinheiro para continuar comprando e manter a economia funcionando.

O auxílio emergencial dado às famílias, tem um custo e pesa nas contas públicas, aumentado a dívida do governo. Em alguns países – poucos, na verdade –, as contas estão estabilizadas. Em outros, a situação é difícil. No Brasil, todos sabemos que o governo gasta muito e já está super endividado. Não está nada fácil, a nossa situação. Mas, naquele momento, o melhor a ser feito, era mesmo obter um empréstimo para disponibilizar o auxílio a população menos privilegiada.

Esse gasto inesperado, teve um forte efeito no caixa do governo. Saiu mais dinheiro do que o esperado, a dívida aumentou e terá que ser paga em uma data futura. Uma solução, defendida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e rechaçada pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, é aumentar os impostos. Isso também é complicado, resolve o problema da dívida do governo, mas reduz a quantidade de dinheiro em nossos bolsos. Com essa realidade, compraremos menos e o crescimento do país também será menor.

Difícil a situação que nós e muitos outros países, enfrentamos com o confinamento social. Não quero entrar na discussão sobre se devemos ou não, manter o distanciamento social. Do ponto de vista econômico, o isolamento é catastrófico. Ele reduz a renda das famílias, que acabam reduzindo o seu consumo. Menos gastos, menos dinheiro circulando, a economia sofre.

Qual a saída? Existe uma? Sim! É o crescimento com qualidade. Com ele, a economia não só cresce, como também ganha em eficiência. A produtividade aumenta. Esse crescimento causa um natural aumento na arrecadação de impostos, reequilibrando o caixa dos governos. Os governos arrecadam mais, reduzindo as suas dívidas.

Só as reformas tributária e administrativa, podem nos levar a esse tipo de crescimento. Sem elas, o Brasil continua patinando.

A arrecadação de impostos no Brasil é complicada, confusa, ineficiente e desigual. Uma reordenação e simplificação de nossos impostos são prioritárias. Também é urgente taxar mais, quem pode pagar mais, e cobrar menos de quem não pode. Chamamos isso de justiça fiscal, perdida ao longo dos anos por uma regulamentação tributária velha e cheia de puxadinhos.

A reforma administrativa, aumenta a eficiência do governo e permite a sobra de caixa para investimentos que sustentam o crescimento de longo prazo. Sem uma reordenação da máquina do governo, continuaremos gastando muito e mal.

No caso de enfrentarmos uma segunda onda de contaminação pela covid-19, cabe a pergunta: teremos uma renovação do auxílio emergencial?

Mesmo antes da pandemia, o governo brasileiro em todos os seus níveis –federal, estadual e municipal – gastava muito e mal. A grande maioria dos estados estão quebrados. Não tem dinheiro nem para pagar salários e aposentadorias.

Se o país passar por uma segunda onda de infecção – o que já acontece na Europa e Estados Unidos –, um novo auxílio emergencial seria necessário. Mas esse gasto adicional, colocará as contas dos governos em situações ainda piores.

Para ser muito transparente com vocês, tenho que dizer que não sei o que é pior: não aprovar um novo auxílio ou aumentar ainda mais o descontrole das contas do governo? O auxílio emergencial ajuda o país a funcionar. Reduz o efeito do confinamento. Mas ele tem um custo alto. Nossa situação não é fácil.

Grandes e profundas mudanças na parte tributária e na forma como os governos gastam o seu dinheiro são os únicos caminhos para atravessarmos esse período e caminhar em direção a um crescimento sustentável de longo prazo. Aprovar transformações responsáveis, intensas e efetivas nas contas do governo é nossa única saída. Vamos torcer para que os poderes executivo e legislativo encontrem a fórmula segura para o nosso querido país.
 

Lauro Araújo, assessor de investimentos na Atrio Investimentos

 

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