04/09/2020 às 16h03min - Atualizada em 04/09/2020 às 16h03min

Prevenção do suicídio: como uma boa conversa pode ajudar

Praticar a escuta ativa, sem julgamentos e recomendar apoio profissional são os primeiros passos para ajudar uma pessoa que pensa em morrer

Unimed
Portal DV, CVV, Ministério da Saúde, Associação Brasileira de Psiquiatria, Conselho Federal de Medicina, SBEI, Agência Brasil
Alguém próximo a você sofre de depressão ou tem ideação suicida? É preciso falar (e ouvir) sobre isso. Buscar informação sobre o assunto é fundamental para não se deixar levar por mitos.

Pensando nisso, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Centro de Valorização da Vida (CVV) criaram a campanha Setembro Amarelo, que tem o objetivo de promover a informação sobre saúde mental e a prevenção do suicídio. 

Por mais delicado que seja o tema, tratar como tabu ou fingir que não existe só piora a situação. Então, vamos conversar?

Aqui, você encontra informações sobre sinais de comportamentos suicidas, dicas sobre como conduzir uma conversa, o que não falar e também como lidar com essa situação em período de pandemia e isolamento social.

Setembro Amarelo e a pandemia



Todos os anos, cerca de 11 mil brasileiros tiram a própria vida. No mundo, o número de suicídios, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é de 800 mil por ano. Estima-se que cada morte por suicídio afete intimamente a vida de cerca de 60 pessoas, entre familiares, amigos e colegas.

Ainda não há dados precisos sobre o impacto da pandemia e do isolamento social na saúde mental e nos números de suicídios. Porém, uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Psiquiatria revela que 89,2% dos especialistas entrevistados destacaram o agravamento de quadros psiquiátricos em seus pacientes devido aos efeitos do novo coronavírus na sociedade.

Questões familiares evidenciadas, o medo da doença, a incerteza em relação à economia, a solidão, o afastamento de atividades de lazer, a dificuldade na busca por tratamento psicológico… são muitos os fatores que contribuem para essa piora e sobre os quais se precisa falar.

Com internet e telefone, o distanciamento físico não precisa significar a perda dos contatos. É importante estar aberto para procurar e oferecer escuta.

Vale lembrar: amizade faz bem para a saúde
 
Pequenas atitudes mostram que as amizades seguem firmes: vale telefonemas, videochamadas, mensagens, o que funcionar melhor para cada um. Perguntar como a pessoa está, compartilhar fotos e até memes que te façam lembrar dela são formas de se fazer presente.

Com streaming, é possível combinar de assistir ao mesmo filme e comentar em tempo real por mensagens. E que tal mandar um delivery de uma comida que você sabe que a pessoa gosta?

Como identificar comportamentos suicidas



Não é possível prever com certeza se uma pessoa vai ou não tirar a própria vida. Existe uma série de elementos – psicológicos, biológicos, culturais e socioambientais – que podem levar ao desfecho.

É preciso estar atento ao comportamento das pessoas à sua volta e não ignorar sinais que podem ser pedidos de ajuda.

Existem alguns possíveis sinais de comportamento suicida:

1. Falar muito sobre a própria morte e demonstrar desesperança em relação ao futuro
2. Usar expressões que manifestam intenções suicidas: “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “eu queria poder dormir e nunca mais acordar”, “é inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar”, “vocês vão ficar melhor sem mim”, não aguento mais”
3. Reduzir as interações: não atender a telefonemas, não responder mensagens ou ser evasivo
4. Apresentar grandes mudanças de humor (estar eufórico em um dia e profundamente desencorajado em outro)
5. Ter atitudes arriscadas, como dirigir de forma imprudente ou entrar em brigas
6. Começar a se despedir de amigos e familiares como se não fosse vê-los novamente


Cerca de 17% dos brasileiros já pensaram alguma vez em suicídio. O risco de ser efetivado aumenta se a pessoa já fez planos sobre isso e dispõe de meios para executar.

Pratique a escuta ativa



Mesmo com o distanciamento social, é possível perceber mudanças no comportamento on-line de seus entes próximos, especialmente aqueles que você sabe que são depressivos ou estão em sofrimento.

Nesse caso, é importante chamar a pessoa de maneira privada e tranquila para conversar de forma aberta, respeitosa e empática. Pergunte como a pessoa está, o que tem feito ultimamente, como está se sentindo.

Manifeste sua preocupação e se mostre aberto para ouvir. Não tenha medo de perguntar sobre a vontade de morrer. Isso não induz ao ato. Pelo contrário: ajuda a pessoa a falar e buscar ajuda.

Evite falar muito sobre si, oferecer soluções simples, julgar ou menosprezar o problema. Frases como “não acredito que você pensou nisso”, “isso é pecado”, “pra sair dessa é só querer”, “tem gente em situação pior”, “isso é frescura”, “não precisa chorar por isso”, “você tem tudo do bom e do melhor” não ajudam a demover as intenções. Pior: tendem a encerrar a conversa.

A escuta ativa é fundamental para que a pessoa sinta que está realmente sendo ouvida e compreendida. Isso não significa, no entanto, deixar a pessoa falando sozinha e apenas ouvir. Confira algumas pontuações que podem ser feitas ao longo da conversa:

- Faça perguntas abertas (como: o que você tem feito?, como está se sentindo?)
- Resuma brevemente o que a pessoa falou, de tempos em tempos, para que ela saiba que você está atento ao que ela diz (é uma forma de ela mesmo se escutar)
- Retorne a algum ponto que não tenha ficado claro e tente, ao máximo, escutá-la sem julgamentos

 
A importância do acompanhamento profissional 



Uma das características do pensamento suicida é a distorção mental da percepção da realidade. A pessoa tem uma avalição rigorosamente negativa sobre si, sobre o mundo e sobre o futuro. Muitas vezes, vislumbra apenas a morte como possibilidade para o fim de um sofrimento. Isso somado a um comportamento impulsivo pode levar a um fim trágico.

O acompanhamento psiquiátrico e psicológico oferece outras perspectivas e ajuda a desenvolver habilidade emocional para administrar adversidades da vida. Aos poucos, é possível reencontrar a força para recomeçar.

Você pode ajudar se oferecendo para marcar a consulta com o profissional de saúde. Também é importante manter o contato com a pessoa, mostrar que está junto e acompanhar a evolução.

Se você acha que essa pessoa está em perigo imediato, a orientação do Ministério da Saúde é não deixá-la sozinha. Você pode procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde, de emergência ou entrar em contato com alguém de confiança, indicado pela própria pessoa.

Se a pessoa com quem você está preocupado vive com você, assegure-se de que ela não tenha acesso a meios para provocar a própria morte em casa.

Você também pode indicar os serviços oferecidos pelo CVV, disponível em www.cvv.org.br, que trabalha para promover o bem-estar das pessoas e prevenir o suicídio, em total sigilo, 24h por dia.
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