07/05/2020 às 11h21min - Atualizada em 07/05/2020 às 11h21min

Um dia após confirmação de doping, atleta concede entrevista exclusiva

Nadadora Patrícia Pereira violou regras no Parapan de Lima, em 2019

Agência Brasil
Foto: Marco Antônio Teixeira
Um dia após receber a notificação oficial por parte do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, sigla em inglês) de suspensão de 12 meses, por violar a regra antidopagem durante os Jogos Parapan-Americanos de Lima no ano passado, a nadadora Patrícia Pereira falou com exclusividade com a Agência Brasil.

No resultado do exame de urina, realizado no último dia 21 de agosto, foram encontradas  hidroclorotiazida e metabólito, e SARM LGD-4033 (Ligandrol) e metabólito, que constam na lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidopagem (Wada, sigla em inglês). A punição nesse caso, conforme a regulamentação, vai de um a quatro anos, mas a brasileira recebeu a pena mínima por ter provado que não teve culpa e assumido que foi negligente.  

O que você pode falar sobre a ingestão dessas substâncias que apareceram nos exames?

Patrícia: Gostaria de reforçar que não agi de má fé e isso foi comprovado pelas autoridades responsáveis. Admito a negligência e reforço que sempre estive à disposição das autoridades antidopagem. Sou atleta paralímpica desde 2009 e na minha carreira meu histórico em testes antidopagem demonstram meu comprometimento. Por isso, de boa-fé, acato a suspensão esportiva e voltarei a praticar o esporte que amo a partir de agosto deste ano.

Existe algo mais a ser feito para buscar uma alteração na punição? Alegando que você não teve culpa, existe uma chance de alcançar a absolvição?

Patrícia: Eu aceito a advertência. Acredito que as autoridades tomaram a decisão correta depois da análise do caso. O maior tempo de suspensão seria de quatro anos, fui suspensa por um ano porque ficou provado que não fiz o uso intencional das substâncias.  No começo é claro que ficamos com os nervos à flor da pele, mas isso já está no passado. Quero sempre olhar para o futuro e dar o melhor de mim nas piscinas. A sensação é de que ainda posso dar muito mais para o meu país e posso representar o Brasil da melhor forma, vou atrás disso. 

Depois do Parapan, você não competiu mais. Os dias têm sido só de treinamento?

Patrícia: Eu continuei fazendo treinos em casa, mas longe das piscinas. Estou tentando me manter ativa com alguns exercícios em casa e fazendo o máximo que posso para voltar bem aos treinos.

O adiamento dos Jogos Paralímpicos de Tóquio acabou trazendo uma nova perspectiva para você resolver essa questão do doping e participar lá no Japão?

Patrícia: A postergação dos Jogos foi necessária devido à situação que infelizmente o mundo vive. Para qualquer atleta os Jogos Paralímpicos são um sonho.

Eu já tive a felicidade de participar de um quando conquistei a prata na Rio 2016, e agora farei o meu melhor para voltar a participar de um evento com tanta magnitude quanto esse. Meu objetivo é mais uma medalha paralímpica no currículo e estou muito feliz por voltar a treinar em agosto, e poder ter essa chance novamente. Tenho que pensar competição por competição até chegar lá. Um passo de cada vez. A natação é um esporte de dedicação e isso eu tenho de sobra. Serão dias intensos até Tóquio 2021, mas estou preparada.

Entenda o caso 

As substâncias hidroclorotiazida e SARM LGD-4033 (Ligandrol) detectadas pela Wada no exame de urina da nadadora constam da lista de subtâncias proibidas nas classes S5 (Diuréticos e agentes mascaradores) e S1.2 (outros agentes anabólicos) respectivamente.

Hésojy Gley, médico-chefe e coordenador da equipe antidopagem do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) esclareceu à Agência Brasil quais são os efeitos dessas substâncias no organismo.

“A Hidroclorotiazida é um diurético que tem o uso para pressão alta, hipertensão e algumas raras condições metabólicas. Mas, no mundo da suplementação, acaba sendo usada para mascarar situações, ou para a perda de peso. É proibida desde os primórdios e é bem conhecida no meio esportivo. E a SARM LGD-4033 (Ligandrol) já é bem mais nova. Em muitos casos, essa droga não aparece nos rótulos dos suplementos. O nome é a sigla em inglês para um modulador que age diretamente no receptor hidrogênio. É seletivo para esse receptor. Ou seja, onde o hormônio análogo à testosterona - ou a própria testosterona - atua na célula, essa substância vai lá e age. A "vantagem" da SARM é que ela é seletiva. Ela vai no receptor celular e dá o sinal para que ele faça a função de aumento de síntese de proteínas, o que a gente chama de anabolismo e, teoricamente, tem menos chance de apresentar efeitos colaterais que seriam a virilização e o acúmulo de gordura ruim nas mulheres. Mas, apesar de parecer ter menos efeitos colaterais, ela é bem mais cancerígena do que as outras testosteronas", alerta o médico.

Os suplementos utilizados pela nadadora foram analisados em um laboratório credenciado pela Wada, e dois deles foram definidos como contaminados com essas substâncias. Dessa forma, pelo nível reduzido de culpa da esportista pela violação e com base nessa contaminação dos suplementos, o IPC e a atleta concordaram com a sanção de 12 meses. Lembrando que, na regulamentação da Wada, a suspensão nesse tipo de caso pode ser de um a quatro anos. O processo, como todos os demais envolvendo o IPC, seguiu em sigilo até a conclusão dos trabalhos. Dessa forma, a nadadora está liberada para voltar a competir a partir do dia 20 de agosto deste ano. 

Medalhas

Com a punição, Patrícia Pereira também perdeu as duas medalhas conquistadas em Lima (Peru), a prata nos 50m livre e o bronze nos 100m livre da classe S5.

Nos 50m, a argentina Ana Noriega deve herdar a prata, e o bronze ficará com a outra brasileira Esthefany de Oliveira. Na prova dos 100m, Esthefany, que originalmente chegou em quarto lugar, ficará com o bronze. Assim, o Brasil mantém a sua campanha histórica que totalizou 308 medalhas, um recorde em todas edições de Jogos Parapan-Americanos.
 
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