02/04/2020 às 11h28min - Atualizada em 02/04/2020 às 11h28min

A modernidade é uma época de incertezas e estranhamento

Assessoria de Imprensa, Naves Coelho
Foto: Divulgação

O mundo está passando por catástrofes naturais e muita coisa nova. Os tempos são líquidos. Tudo é fluido, até mesmo nossos afetos. Não sabemos o que está por vir e é natural que dentro desse contexto nossa mente se defenda de alguma forma. Estamos ameaçados.  O medo nos assola diante de tanta imprevisibilidade, que nos impõe uma sobrecarga psíquica enorme.

O excesso de informação, textos científicos, excesso de fake News, confinamento, stress, tudo isso promove a modificação de comportamentos sociais e mentais.  

Estamos vulneráveis e assustados por esse Covid- 19.

Atravessando a cortina do nosso cotidiano esse vírus, vem marcando de forma cada vez mais palpável a vida coletiva e individual. É natural, portanto, que estejamos diferentes. Modificados. Sem saber direito quem somos e o que fazer. Ligeiramente alienados.  Esse estranhamento vem justamente desse caos, dessa ordem que para nós provoca desordem e instabilidade.

Nessa plataforma em que tudo é indefinito, ilimitado e intemporal é natural que tenhamos medo. E que até possamos vivenciá-lo de formas diferentes, pois cada um reage de forma particular ao estímulo causador de medo. Para uns, o novo coronavírus se trata de uma gripezinha. Outros perdem noite de sono e vivem cheios de apreensão. Cada um sente o golpe à sua maneira. Mas é preciso lucidez.

Miguel de Cervantes, dizia que “o medo tem muitos olhos e enxerga coisas nos subterrâneos”. Ou seja, ele vê o que não existe e sofre pelo que não aconteceu. É por isso que é preciso, neste momento, acudir para que não nos tornemos prisioneiros do medo e de um certo delírio; quase paranoide.

É importante administrar esse temor, porque ele não conversa com a liberdade. Ele engessa. É preciso então fazer aqui uma curva e enfrentar tudo isso, com mais coragem; lembrando que crises são lugares privilegiados de crescimento e que temos dentro de nós dinâmicas radicais de alternativas para lidar com o Covid-19, que vão desde o isolamento, como os fortalecimentos de várias defesas mentais antes inutilizadas e desperdiçadas.   

É tempo de desenvolver nossas blindagens emocionais e nossas imunidades emocionais, para que não nos tornemos pacientes sintomáticos do medo, mesmo sabendo que a síndrome do pânico e outras doenças vão pipocar numa curva tão ascendente como a do Covid-19.

Devemos ir adiante, certos de que há uma estranha ordem por trás dessa imprevisibilidade que é tão absurda, tão impensável, que nos faz até remeter à Teoria do Caos. Aquela pela qual o bater das asas de uma borboleta no Brasil, poderia explicar um tsunami na Coreia.  Ou que alterações mínimas na trajetória de um ato possam causar uma cadeia de acontecimentos inimagináveis, mudando a vida das pessoas do mundo inteiro.

Além da ciência e do karma, o caos também pode explicar um pouco o que está acontecendo. E assim, modestamente, afirmamos que há um pouco de lógica nisso tudo. E um certo sentido . Pois o que mais explicaria que um vírus escapado da China possa estar virando o Brasil de cabeça para baixo e matando gente em todos os continentes, de uma forma incontrolável?

Tudo isso nos faz refletir sobre o lugar onde estamos. Pode haver uma estranha ordem por trás desse cenário. Cabe a nós entendê-la. E no fundo cada um sabe qual a sua própria ordem. O que verdadeiramente a motivou estar aqui, neste momento e nessa época, enfrentando isso tudo.

Estejamos atentos e observando, porque as coisas do mundo têm histórias para contar.  

Não é preciso ter muito background para entender. Basta ter um pouco de sensibilidade, um pouquinho de relevo cultural. Há séculos, o mundo está desse jeito, se desmanchando, se renovando, se regenerando.

Zymunt Bauman já dizia que tudo mais na vida líquido- moderna, a morte se torna temporária até segunda ordem. Doenças, então! Tudo tem seu ciclo.  Já fomos assolados por outras doenças graves e sobrevivemos. Há uma plenitude de estratagemas para superarmos mais esta. Não morremos de vaca louca, nem de cólera; sobreviveremos e um dia vamos entender tudo isso.   Agora só há uma explicação: o bater das asas da borboleta na China.

Maria Inês Vasconcelos, advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora

 


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